Existe algo de especial nos heróis que nascem de um simples desejo infantil. E poucos representam isso tão bem quanto o Capitão Marvel, o campeão mágico que surgiu na Era de Ouro dos quadrinhos e conquistou leitores com uma ideia tão simples quanto poderosa: e se uma criança pudesse se tornar o maior herói do mundo?
O Capitão Marvel é, na verdade, Billy Batson, um garoto órfão que carrega dentro de si uma bondade rara. É justamente essa pureza que chama a atenção de um antigo mago, que o escolhe como seu campeão. A partir desse encontro, tudo muda. Basta que Billy pronuncie a palavra “SHAZAM!” e um relâmpago mágico transforma o menino em um herói adulto, forte e imponente.
Mas essa palavra não é apenas um nome. Ela carrega um legado.
Cada letra representa uma fonte de poder: Salomão oferece sabedoria. Hércules concede força. Atlas garante resistência. Zeus traz o poder dos deuses. Aquiles simboliza coragem. Mercúrio entrega velocidade.
É uma combinação quase mítica, como se várias lendas antigas tivessem sido reunidas em um único campeão.
Um herói com rosto humano
Criado em 1940 por Bill Parker e desenhado por C.C. Beck para a Fawcett Comics, o Capitão Marvel apareceu pela primeira vez em Whiz Comics #2. Seu visual rapidamente se tornou um dos mais marcantes dos quadrinhos: uniforme vermelho vibrante, o raio no peito, capa branca caída sobre o ombro e um sorriso confiante que parecia convidar o leitor a fazer parte da aventura.
Há um detalhe curioso que ajuda a entender esse carisma. Beck se inspirou no ator Fred MacMurray para desenhar o rosto do herói. O resultado foi um personagem com feições amigáveis, acessíveis, bem diferente da aura distante de outros super-heróis da época.
E isso fez toda a diferença.
O segredo do sucesso
Enquanto muitos heróis eram adultos enfrentando problemas grandiosos, o Capitão Marvel carregava algo único: ele ainda pensava como uma criança. Mesmo com poderes quase ilimitados, Billy continuava curioso, impulsivo, às vezes até atrapalhado.
Era fácil se ver nele.
Durante o auge da Era de Ouro, entre 1941 e 1942, o personagem alcançou um feito impressionante. Suas revistas venderam mais do que as do próprio Superman. Não era apenas um sucesso editorial, era um fenômeno cultural.
O leitor não queria apenas acompanhar suas aventuras. Queria ser o Capitão Marvel.
Um universo em expansão
Com o tempo, o mundo do herói cresceu. Surgiram aliados como Mary Marvel e o Capitão Marvel Jr., formando a chamada Família Marvel, uma extensão natural daquela ideia original de compartilhamento de poder.
Do outro lado, vieram vilões memoráveis. O cientista excêntrico Doutor Silvana, responsável até por apelidar o herói de “Grande Queijo Vermelho”, e o poderoso Adão Negro, que funciona como um reflexo sombrio do próprio campeão.
Um legado que atravessa gerações
Mesmo com mudanças de nome e reinterpretações ao longo das décadas, a essência do Capitão Marvel permanece intacta. Ele continua sendo a personificação de um sonho simples e universal.
O de que, por trás de qualquer criança comum, pode existir algo extraordinário esperando para ser despertado.
E talvez seja por isso que, tantas décadas depois, ainda seja impossível não sorrir ao ouvir aquela palavra ecoando como um trovão:
O primeiro crossover entre DC e Marvel não aconteceu em Nova York. Não foi anunciado em convenção. Não virou evento editorial. Aconteceu em silêncio. No Brasil. Em 1964.
No vasto panteão dos quadrinhos, poucos eventos surpreendem tanto quanto o encontro entre heróis de editoras diferentes. Mas a história oficial está errada.
A aventura “A Volta de um Grande Herói”, publicada no Almanaque do O Globo Juvenil de 1964 pela Rio Gráfica e Editora (RGE), realizou algo que só décadas depois seria tratado como “evento”: uniu o Capitão Marvel original da Fawcett (hoje conhecido como Shazam) ao Tocha Humana I da Timely Comics.
Muito antes de Superman vs. The Amazing Spider-Man (1976), um artista brasileiro realizou, sem marketing, sem contrato e sem alarde, o primeiro crossover impossível da história dos quadrinhos.
O Contexto Brasileiro
Para entender a singularidade dessa história, é preciso lembrar como funcionava o mercado editorial brasileiro da época. Ao contrário dos Estados Unidos, onde cada editora mantinha rígido controle sobre seus personagens, no Brasil era comum reunir heróis de origens diversas em uma mesma publicação.
O leitor brasileiro estava acostumado a ver, lado a lado, aventuras de Batman, Capitão América, Pafúncio, Zorro, O Anjo e tantos outros.
Por isso, quando a RGE reuniu Capitão Marvel e Tocha Humana em uma trama inédita, não havia a sensação de “quebra de barreiras” editoriais. Para o público local, ambos eram apenas heróis que dividiam as páginas do mesmo almanaque. A ideia de um “crossover entre editoras” simplesmente não existia como conceito cultural.
Esse significado só surgiria anos depois, com a consolidação da Marvel de Stan Lee no Brasil a partir de 1967, quando as editoras passaram a ser percebidas como universos separados, identidades distintas e marcas culturais.
Outro detalhe fundamental: tanto o Capitão Marvel quanto o Tocha Humana original já estavam fora de circulação nos Estados Unidos quando a história foi publicada no Brasil.
O Capitão Marvel havia sido interrompido em 1953 após a disputa judicial com a DC e só retornaria em 1972, já sob o selo da própria DC. O Tocha Humana de Carl Burgos, por sua vez, desapareceu no fim da Era de Ouro, teve um breve retorno nos anos 1950 e foi definitivamente substituído em 1961 por um novo personagem: Johnny Storm, do Quarteto Fantástico.
Ou seja: enquanto estavam “mortos” no mercado americano, ambos seguiam vivos no Brasil, estrelando aventuras inéditas, produzidas localmente, fora da lógica editorial das matrizes.
A História
Com roteiro e arte de Rodrigues Lelis (crédito raramente lembrado, mas historicamente fundamental), a trama se desenvolve em 18 páginas.
Billy Batson descobre que o Tocha Humana está desaparecido e acaba encontrando-o como prisioneiro do vilão Cobra (Python), inimigo clássico da Era de Ouro. Debilitado, o Tocha precisa ser resgatado pelo Capitão Marvel antes de voltar à ativa.
O plano de Cobra é ameaçar o mundo com uma arma de destruição em massa: a Hiperbomba Z, capaz de lançar calor devastador na atmosfera.
Capitão Marvel enfrenta o vilão, mas é o Tocha Humana, já recuperado, quem desempenha o papel decisivo na destruição do submarino inimigo e na vitória final.
No epílogo, surge um detalhe simbólico: o Tocha se pergunta sobre o paradeiro de seu jovem parceiro Toro, chamado no Brasil de Centelha, um nome mais direto, mais semântico, mais inteligível para o público local, evocando imediatamente o fogo e a combustão.
Quem é Quem nesse Encontro Histórico?
Tocha Humana (Jim Hammond)
Criado em 1939 por Carl Burgos, Jim Hammond foi um dos pilares da Era de Ouro. Um androide capaz de inflamar seu corpo e voar, protagonizou sua própria série de revistas e dividiu capas com Namor em alguns dos primeiros embates entre super-heróis da história.
No Brasil, foi publicado desde 1940 em O Globo Juvenil Mensal e, mais tarde, em outros títulos da RGE. Seu sidekick Toro (Centelha), um garoto mutante com poderes flamejantes, reforçava o apelo da dupla.
Capitão Marvel
O herói mais popular dos anos 1940, rival direto do Superman em vendas, símbolo da Fawcett Comics e ícone absoluto da Era de Ouro. Um personagem que foi grande demais para o próprio mercado que o criou, engolido por disputas jurídicas e apagado por décadas.
No Brasil, no entanto, seguiu vivo, ativo e presente no imaginário popular por meio das publicações da RGE.
Python (Cobra)
Vilão de origem alemã, ex-contorcionista recrutado pelo nazismo, Python foi um dos inimigos mais persistentes do Tocha Humana na Timely.
Preso e dado como morto nas HQs americanas em 1943, ressurgiu no Brasil em 1964 pela pena de Rodrigues Lelis, agora como o responsável pelo cativeiro do Tocha e pelo plano da Hiperbomba Z.
O Legado de Rodrigues Lelis
Pouco se sabe sobre Rodrigues Lelis além de seu trabalho para a RGE nos anos 1960. Mas sua importância é maior do que seus registros biográficos.
Ao criar uma aventura original que unia dois personagens de editoras distintas, Lelis não apenas escreveu uma boa história: ele produziu, sem saber, um artefato histórico.
Sem contratos, sem eventos, sem marketing e sem discurso institucional, realizou o que décadas depois se tornaria uma obsessão da indústria: o crossover como espetáculo.
“A Volta de um Grande Herói” não foi anunciada como algo especial. Não foi promovida como marco. Não foi vendida como evento. Era apenas mais uma boa história em um almanaque recheado de atrações.
E talvez por isso seja ainda mais poderosa.
O Reconhecimento Internacional na Alter Ego
Décadas depois, a história voltou à tona no exterior graças à republicação na revista americana Alter Ego, editada por Roy Thomas.
Entre 2006 e 2008, a aventura foi serializada do número #52 ao #60, com tradução e letreiramento para o inglês, permitindo que o público internacional descobrisse esse capítulo singular da produção brasileira.
Foi o reconhecimento tardio, mas justo, de que o primeiro grande crossover “global” entre DC e Marvel não nasceu em Manhattan, não nasceu em convenções e não nasceu como evento corporativo.
Diacho!
Como parte deste projeto, estou disponibilizando para download a edição Diacho! Dizia o Capitão Marvel #0, reunindo três versões históricas de “A Volta de um Grande Herói”: a versão remasterizada e colorizada pelo Diacho Velho, a publicação original da RGE e a edição em inglês da Alter Ego (Twomorrow). Mais do que um arquivo, esta edição funciona como um pequeno dossiê cultural, reunindo memória, preservação e acesso, uma história de cada vez, uma edição de cada vez.
Sou fã do verdadeiro Capitão Marvel há mais de 50 anos. No entanto, foi apenas há pouco tempo que uma descoberta me surpreendeu: o ‘Rei dos Quadrinhos’, Jack Kirby, parece ter sido o arquiteto invisível por trás da criação do Capitão Marvel da Marvel Comics e do retorno do Capitão Marvel da DC. Decidi então mergulhar neste mistério e compartilhar os bastidores dessa história fascinante.
Jack Kirby, o “Rei dos Quadrinhos”, deixou marcas indeléveis na cultura pop – muitas vezes de forma invisível – em dois personagens que, curiosamente, carregaram o mesmo nome: o Capitão Marvel. De um lado, o Mar-Vell da Marvel, surgido em 1967; do outro, o Capitão Marvel da Fawcett, reaparecendo na DC em 1973. Oficialmente, ele não aparece em nenhuma das versões. Extraoficialmente? A sombra do Rei está em cada esquina dessa história.
O Processo que o Silenciou
Para entender como essa história complexa se desenrola, é preciso voltar no tempo. O Capitão Marvel original foi um dos maiores sucessos da Era de Ouro dos quadrinhos. Criado pela Fawcett Comics em 1941, o herói com poderes mágicos superou o Superman em popularidade e vendas, tornando-se o personagem mais lido da época.
Seu sucesso colossal, no entanto, despertou a atenção da National Comics (hoje, DC Comics), que via no Capitão Marvel um plágio de seu próprio ícone, o Superman. Em 1941, a National abriu um processo contra a Fawcett por violação de direitos autorais, dando início a uma das mais longas batalhas judiciais da história dos quadrinhos.
Após doze anos de disputas, a Fawcett, já desgastada e enfrentando a queda nas vendas do gênero de super-heróis, decidiu que não valia a pena continuar a batalha. Em 1953, um acordo extrajudicial foi selado: a Fawcett pagou à National uma quantia em dinheiro e, o mais importante, concordou em cessar a publicação de todas as histórias do Capitão Marvel. O herói foi efetivamente silenciado, desaparecendo do mercado por duas décadas.
A Corrida Pelo Nome da Marca
No fim dos anos 1960, a Marvel vivia uma situação singular. Desde 1957, sua distribuição nacional era feita pela Independent News, uma subsidiária da rival DC Comics. O acordo era restritivo: a editora só podia publicar um número limitado de títulos mensais. Isso forçava seus autores a encher cada revista de personagens e ideias novas, já que não havia espaço para experimentar com uma linha mais ampla de revistas. Foi nesse ambiente apertado e criativo que nasceram os X-Men, os Inumanos, o Surfista Prateado e o Pantera Negra.
Em 1968, o contrato com a Independent News chegou ao fim, e a Marvel finalmente podia expandir seu catálogo. O diretor editorial Martin Goodman, de olho no mercado e atento à guerra das marcas, decidiu que era a hora de ocupar um espaço vazio: o nome “Captain Marvel”. Naquela década, outros editores haviam testado personagens com esse título. O caso mais emblemático foi o Capitão Marvel de Carl Burgos (criador do Tocha Humana original), publicado pela Myron Fass em 1966, uma aberração editorial que misturava elementos de ficção científica e visual espalhafatoso, e que chamou a atenção da área jurídica da Marvel. Goodman não queria correr o risco de perder esse nome associado à sua editora.
Assim, ordenou a Stan Lee: crie um novo Capitão Marvel imediatamente para assegurar a marca registrada. Stan, pouco entusiasmado com a ideia, obedeceu. Com arte de Gene Colan, surgiu em 1967 o alienígena Kree Mar-Vell, um soldado destacado para vigiar a Terra que decide desertar e protegê-la.
Mas a história não é tão simples. É nesse ponto que a versão de Kirby se entrelaça à narrativa oficial. Kirby contou uma outra versão a Mark Evanier, seu assistente naqueles anos. Segundo ele, fora sua a ideia original de um soldado Kree que abandona o dever militar para proteger os humanos. Stan, disse Jack, até havia se mostrado animado com o conceito, mas Kirby quis esperar para negociar um acordo melhor com Goodman.
Quando viu a revista publicada, sentiu que sua ideia havia sido tomada, sem que seu nome fosse lembrado. Para Kirby, que já acumulava mágoas sobre créditos e direitos, esse episódio foi mais um prego no caixão de sua desgastada relação com a Marvel.
Roy Thomas, que assumiu o título logo em seguida, preferiu não tomar partido. Em Alter Ego #166, de 2020, disse que não podia confirmar nem desmentir a história de Kirby — relatada apenas anos depois por Evanier. O que Thomas repetiu foi a versão que ouvira de Stan: Goodman mandara criar um Capitão Marvel, Stan não gostava do nome por ser ainda forte na memória do público, e que, certa vez, Stan a universitários que a ideia de um Capitão Marvel de ficção científica teria vindo de um produtor de TV interessado em adaptá-lo para desenho animado — um projeto que nunca saiu do papel.
A origem do Mar-Vell, assim, permanece suspensa entre diretivas editoriais, memórias contraditórias e uma ideia que talvez tenha escapado da boca de Kirby numa conversa informal.
A Oportunidade na Distinta Concorrente (DC)
Pouco tempo depois, em 1970, Kirby migrava para a DC com um contrato que lhe conferia teoricamente, liberdade criativa. No papel, parecia o paraíso: ele criaria, escreveria e editaria. Na prática, a distância entre seu estúdio na Califórnia e os escritórios de Nova York virava um abismo. Na sede, os rostos do Superman em Jimmy Olsen eram redesenhados sem sua anuência, e as decisões estratégicas passavam longe de suas mãos. Foi nesse cenário que Kirby enxergou outra oportunidade — e talvez outro destino.
Kirby propôs diretamente a Carmine Infantino, diretor editorial da DC, que a editora revivesse o Capitão Marvel da Fawcett, trazendo de volta o artista original, C.C. Beck, e com Kirby como editor e roteirista. Infantino hesitou, achando que a Fawcett pediria demais, mas Kirby contrapôs: “Eles não estavam ganhando nada com o personagem; por que não fazer a proposta?” O fato é que a Fawcett havia se comprometido com a DC a nunca mais publicar o herói ou permitir que outros o fizessem. A Marvel nunca poderia ter tentado um acordo com a Fawcett (se eles tivessem tentado). A DC era o único lugar onde isso poderia acontecer, e Jack Kirby foi a única pessoa que viu essa brecha. Sendo o assistente de Kirby na época da reunião, Evanier estava presente para testemunhar esta conversa entre Jack e Carmine.
Kirby tinha noção do que pulsava na memória afetiva dos fãs: o Capitão Marvel era um mito adormecido da Era de Ouro, um herói nostálgico desejado de volta. E, como ele havia previsto, a Fawcett aceitou prontamente o licenciamento para a DC.
A editora estava empolgada com o surgimento do mercado colecionador. Contudo, exigiu que o projeto fosse totalmente editado de Nova York, sem a batuta de Kirby. Resignado, Kirby ainda implorou para que não fosse entregue ao editor de todos os títulos do Superman, pois o Capitão Marvel exigia outra sensibilidade — seu pedido foi ignorado. Em 1973, Shazam! #1 foi lançado com roteiro de Denny O’Neil, arte de Beck e edição de Julius Schwartz, justamente o editor dos títulos do Superman — e, apesar do nome do personagem ainda ser Capitão Marvel, a revista usava Shazam! como título por questões de marca registrada. Posteriormente, Carmine Infantino admitiu que pôr Beck sob a supervisão de Schwartz fora um “grande erro”.
Mark Evanier, antigo assistente de Kirby, escritor de Groo the Wanderer e Crossfire, e autor da biografia Kirby: King of Comics, foi quem registrou esses acontecimentos de forma viva e consistente. Seus relatos, baseados em convivência direta com Kirby, dão outra dimensão às motivações e emoções por trás das decisões editoriais.
Resta a pergunta, que paira no ar há muitos anos: teria Jack Kirby sido o fio condutor invisível que coincidentemente movimentou os dois Capitães Marvel, mesmo sem aparecer nos créditos? Ou tudo não passa de um mito construído pelo próprio Rei e pelos que acreditam nele? E assim o mistério persiste, convidando cada leitor a decidir em qual versão da história prefere acreditar.
Referências
Livros
Evanier, Mark.Kirby: King of Comics. Abrams ComicArts, 2008.
Artigos e Entrevistas
Thomas, Roy. Comentário em Alter Ego #166 (novembro de 2020), Twomorrows Publishing. Matéria: “Echoes of Shazam!”, por Alex Ross.